Pensamentos, Desabafos e Pretensões de um indivíduo que teve a honra e a desgraça de nascer em 1972, se perceber como gente em 1985, se achar adulto em 1992 e estar completamente feliz com sua familia em 2009
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Sexo frágil e Bisturis ( Análise de Garota Exemplar de David Fincher)
Muitos torcerão o nariz... mas Gone Girl é não só o melhor filme do David Fincher como um dos melhores da década. Há tanto a se falar sobre ele que vou me restringir a pontos. Aliás, esse é o triunfo do filme: restringir para tornar elásticas as interpretações que vem aos poucos depois que o créditos sobem.
O filme começou a fazer-me mexer na cadeira ( e isso é um ótimo sinal) quando começamos a ver os créditos iniciais que passam numa velocidade de telefilme, como se o diretor tivesse pressa pra contar a história, que daria tranquilamente conteúdo para um seriado de 3 temporadas, mas o projeto de 2 horas e meia tinha que ser cirúrgico. A primeira cena e a última cena são iguais, mas ele consegue fazer-nos, no tempo do filme, ver duas cenas diferentes.
O roteiro tratou desenvolvimento de cada personagem com diálogos absolutamente precisos, que saiam da boca da propria , e logo era reforçada pelo dialogo seguinte.E se isso ja não bastasse, as frases soltas tridimensionalizavam o caráter cultural do microcosmos ali presente, criando um sinismo e uma ironia que não vejo desde o "clube da luta", talvez o seu filme mais cult.
Enquanto "Fight Club" criticava em cores o tipo de sociedade machista competitiva que estávamos inseridos, "Garota Exemplar" conta o que aconteceu com esse macho de 20 anos atrás: foi reduzido a um moleque castrado pelo fio de sexualidade que o torma util ainda hoje.
Mas o esposo por tentar se encontrar num típico exemplar de macho alfa moderno demora pra perceber que está sendo posto em extinção. Não satisfaz a expectativa de sua esposa que tem a aura exemplar da mulher americana perfeita , e renuncia suas "responsabilidades" que a sociedade feminina lhe cobra e vai puni-lo de forma cruel.
Mesmo focado na força da protagonista ( interpretada brilhantemente por Rosamund Pike) todas as mulheres do filme tem a postura do domínio e controle sobre os coadjuvantes homens. "Estou cansado de ser humilhado pelas mulheres" confessa o personagem de um competente nulo Ben Afleck, fazendo papel pamonha que tem sido cada vez melhor ao diretor Afleck do que ao Ator Afleck. Até a mãe que é só citada em um diálogo tem domínio no casal de gêmeos.
É leviano achar que o filme é misógeno como Anticristo do Trier. Flerta mais com a novela do McCarthy "A Estrada" , de uma forma avessa. Ele chama atenção não ao passado ou ao futuro, como nesses filmes, mas sim ao presente. Pós recessão : a mulher está muito mais organizada emocionalmente pra enferentar as perdas, por que os valores naturais delas não passam pelos economicos, e sim, segundo o livro adaptado, pelo sexo e pela prole. É um momento de adaptação (da natureza dos comportamentos), onde monstros (ou monstras) guardados no armário aparecem. Como a cultura do "parecer verdade" , forjar sentimentos e fatos é mais primoroso que a verdade em si, é a maior arma que o ser humano tem, e esse talento o feminino supera anos-luz do masculino.
Mesmo se repetindo em um filme de crime e suspense, Fincher universaliza, muda foco e mostra que é capaz de ser um ótimo contador de história sem precisar desesperadamente anunciar sua presença como Tarantino e Wes Anderson. Mas ele está lá, com seu bisturi bem afiado.
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
Stay, Nolan! (Analise de Interestellar de Christopher Nolan)
Ah como gostaria de tecer elogios para o Nolan e seu irmão genial que vive a sua sombra vendo Interestelar. Juro que quis. Mas vai ficar pra próxima, por que tenho intimidade demais com filmes de ficção cientifica pra destinguir um classico moderno de uma produção que fica só na tentativa de ser eternizada no gênero.
Não é maldade não...entendam.. é apenas uma constatação de que os irmãos Nolan batem cabeça quando trabalham juntos. O diretor da dupla completamente didático e pragmático, e o verdadeiro artista sendo coibido na decupagem do testa de ferro da parceria.
Acredito o quanto é dificil fazer uma produção com o status do Cavaleiro das trevas. Mas Interestelar bem que merecia um toque de independencia do tempo de Amnésia e Insonia.
Vamos por parte que é mais eficiente. A primeira terça parte do longa que debate sobre ecologia + filosofia galáctica, começa muito bem com os pés na Terra, colocando a radicalidade educacional como o cancer de uma humanidade sem esperança. Logo quando o descarismático Macnauguer vai pro espaço, o filme não se encontra entre uma obra autentica e uma homenagem a 2001 de Kubrick, e na parte final, a necessidade de fechar a trama num contexto redenção familiar faz o mistério retificar a descrença na fé humana e o amor uma dimensionalidade piegas.
Mesmo assim o cinemão dos Nolan fazem vc pregar o olho em quase 3 horas e perceber que consegue conversar com a juventude que gosta do recheio e não da massa da pizza entregue.E isso já faz valer os milhoes investidos e as lágrimas arrancadas depois de tanta caça a um ponto afetivo verossimel.
Ainda sim se pudesse voltar ao tempo, eu diria pra que Nolan, ao final do seu grande gol chamado " O Grande Truque": Stay No
lan, Stay!
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
O medo do nosso outro (análise de Coherence)
Tempos em tempos , há assuntos decorrentes na ficção. Tanto na literatura quanto na sétima arte. Conta-se que Pinóquio foi o avô dos filmes sobre robô. Que Frankenstein coloca a ciencia definitivamente no plausível cinematográfico e assim, a cada conceito filosófico , personalizado por um mito o cinema (ou a arte humana ) se renovam. Sob esse ponto de vista tudo parecia uma espiral frctal de conceitos ao encontro do infinito.
Cito aqui uns filmes que abordam isso de maneira especifica que seri "Redescobrindo a Felicidade" , ou " Contra o Tempo" o ótimo "Segunda Terra" e o interessante COHERENCE roteirizado e dirigido por James Wark Byirkit , o mesmo roteirista de Rango , aminação acima da média dublada por Johnny Deep.
Num quebra cabeça de ficcção científica inserimos num discurso de possibilidades de estarmos num lugar onde muitos de nós possam se encontrar... e como não confiamos na nossa sanidade, temos que nos proteger de possíveis demências e idéias incoerentes que venhamos a imaginar.
O medo de nosso outro ,esse sim vai espiralando e nos fazendo cometer atrocidades por conta da perda de individualidade que a aventura proporciona. Assim depois de curtir a loucura que o filme vai te levando, por um ritmo de hand-cam , e despreocupada continuidade ( ja que voce vai se perdendo em tantos alter-egos), que fica difícil de não olhar no espelho depois e sentir-se seguro de que o teu lado negro continua virtual.
A fábula pode sim ser participar com os outros , um filme que reforça a teoria dos paralelos universos. Não nos convence, apenas nos deixa face a face com nossa insustentável noção de si mesmo.
quinta-feira, 24 de julho de 2014
Dose Dupla (Análise de O Homem Duplicado)
Dois corpos não ocupam o mesmo espaços. Essa é a lei mais velha que estudar verbo To Be. é quase um mantra das aulas de ciências. Agora partir da idéia de um mesmo corpo ocupar dois espaços, o cinema tem tido tentado personificar com alguns filmes. Tanto que ja deveria ter um subgenero do drama chamados filmes de "duplo" . O Homem Duplicado, filme adaptado do incrivel livro do Saramago, vem trazer o desafio do escrito portugues, sob a tutela de um diretor que vem impressionando desde Incendios e Prisioners ( titulo Os suspeitos não dá né...tem outro filme com esse nome :( ). Com uma performance madura do jake gyllenhaal, o filme ganha em tensão e ao mesmo tempo nos vazios propositais quase conseguimos escutar a narração do escritor.
Mas o que mais impressiona mesmo é a temática.. Vivemos sob a ótica unica , da invidualidade plena e gritante. Observando os animais, como os peixes em cardumes , é impossivel não fazer a distinção da originalidade de cada ser humano. Imagine que de repente, vc descobre que sim, você é um peixe de um cardume, e que não só existe um outro você, mas esse outro é você. Nada de mundos paralelos e sim vidas paralelas num mesmo universo. Você vive sim , outra vida e ai descobre que há um outro de você , Você é você , e o outro você.
Não é um conceito novo, mas é uma idéia de dificil abstração por conta da física dos fatos. Algo parecido só havia visto em Watchman.
Outra ótica associada ao livro é a relação dos personagens , que discutem a necessidade da História humana se fundir a Ficção da imaginação.
Por tudo isso, o filme não só é um suspense que entretem mas um belo registro de um livro que fica nos anais da estrutura intelectual humana.
sábado, 28 de junho de 2014
Nosso Nu Frontal ( Análise de Sob a Pele )
Estava meio desanimado em comentar sobre os filmes que eu tenho visto...entretanto vem surgindo uma safra semi-independente ( leia-se new- undergrounds) que apostam num enorme público, menos consumidor , porém mais apaixonado e interessante.
Há uma parte do cinema que a fotografia é mais sagrada. Alguns diretores inteligentemente adaptam livro sob uma ótica imagética ,descartam o narrador e tratam assim a obra fílmica com um trabalho original inspirado e livre para interpretações. Tal impressão eu tive quando assisti Sob a Pele, que pipocou na internet com a promessa de ver o nu frontal de Scarlet Yohanssem.
Tal nu, para positiva surpresa, é da humanidade. E algumas pretensas situações faz desse projeto de Johnathan Glazer ( que amargou o hiato do corajoso Reencarnação, apesar de ter estreiado muito bem com Sexy Beast) traz uma ótica interessante, que surge lentamente (como o filme) em nossas emoções.
Os críticos comparacionistas falam da trilha sonora a la Kubrick e da decupagem Antonioniana. Mas me atrevo a dizer, que se tais referencias existiram, elas funcionam quase que como uma combinação original e não uma referencia. A escolha do ponto emotivo ( quase nenhum ) , apenas cirurgicamente pontuado pede pra você observar seus aplicativos psicológicos frente ao fenômeno de ser humano.
Tudo poderia cair pra pieguice, mas a direção firme e obediente a um conceito menos funcional e mais calcado na ausencia, faz-nos respeitar o filme pela coragem.
A parte mais impressionante é o duelo sensorial que travamos conosco ao ver um ator ( Adam Person, que tem uma deformidade verdadeira e rara no rosto) escolhido para que contraponha com a beleza não maquiada de Scarlet Yohanssen , o diálogo mais verdadeiro do cinema dos ultimos tempos sobre a força da aparência e tudo que entendemos.
A partir dali, inumeras escolhas do protagonista o levam a uma viagem sem volta, dando a sensação de que estamos muito bem com nossos aplicativos culturais geneticamente adquiridos.
Nada como o silêncio da imagem , para escutar e exorcizar nossos ruídos. Em nu frontal.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Fantasias Sexuais e Disney ( Analise sobre Escape From Tomorrow)
Saudoso Glauber Rocha , de todas as estupendas falas que ele metralhava em suas entrevistas, a mais conhecida é : basta uma idéia na cabeça e uma câmera na mão. Acho que nem ele se levava tão a sério assim como Randy Moore e seu Escape from Tomorrow ( que sob uma tradução seria "Fuga do amanhã").
Estou completamente convencido que uma idéia boa na cabeça errada é capaz de provocar um buraco no bom senso. Explico: O filme é um recorte de cenas feitas na Disney World sem autorização, e com elas e algumas edições pós produção, foram construidos um roteiro.
Essa "desobediencia civil" provocou um estardalhaço em Sundance, com um possivel boato de ação judicial por parte da Disney de proibir a veiculação da travessura. Até poderia acontecer se o filme fosse bom, mas como disse, não passa de uma boa idéia na mão de um moleque.
Boa idéia está na personagem que, na pele de um pai de família desempregado, passa no surrealismo de externar a criança que existe na hipocrisia adulta, e passamos a ver o filme com seus olhos fetichosos, nas mistura de fantasias sexuais com ninfetas francesas e princesas do parque e do terror produzido pelos bonecos que remetem a violencia travestida em conto de fadas, fora o potencial horror de que as lendas urbanas que rondam o parque podem superlativar justamente no que talvez seja a ultima vez que ele pise os pés no "legítimo mundo encantado do capitalismo"
O moleque acaba sendo um diretor que busca uma estética de decupação com referencias a Lynch mas com a edição tosca um uma camera-guerrilha e atores explorados a uma atuação sofrível.
Todo o projeto tem mais pretensão do que capacidade de tornar viva a excelente retorica da decadencia humana perante a construção por anos de um universo subliminar de fracassos e animosidade, e a tese psicológica que poderia render um grande filme, fica tão sha-la-lá e esquisito quanto um passeio de barco pra ver cogumelos de isopor.
Bizarrice por bizarrice, fico com a Disney e toda sua megalomania
domingo, 27 de abril de 2014
Orgasmos Múltiplos e Perenes (Análise sobre Ninfomaníaca 1 e 2)
Não é de hoje que o sexo é estudado ,livres das amarras morais, cientificamente...mas ainda é um oceano psíquico. Quando um cineasta deseja colocar seus pensamentos sobre o sexo, num filme de extremos (Ninphomaniaca 1 e 2 de Lars Von Trier), é claro que todas as expectativas naturais de polemica ja levaria uma multidão de Voyers (o Cinema é a permissão do fetiche). Mas como é muito obvio, vindo de quem trabalha o cinema do desconforto, o que invade são muito sentimentos esquisitos ao sair dos dois filmes.
Alguns dirão que não é Pornografia...mas é. A mais pura. Tão crua quanto o pecado original. Só que sem gozo, sem se quer sexo mesmo e sim corpos se mexendo desesperadamente pra ocupar vazios existenciais, e um poço sem fundo de desejos.
Gozar a qualquer preço, a busca do gozo utópico,o prazer extendido ao infinito.Toda essa euforia da sociedade moderna é mostrada didaticamente sobre uma metáfora que só incomoda pela supervalorização natural de nossa própria genitália.
A forma utilizada é quase um divâ, onde procuramos intensamente em nos identificar em algum lugar entre a doente por sexo ou o assexuado, que soltam informações estaticas impressionantes e fábulas sexuais, contadas com um distanciamento de microscópio.
Ao estilo de mil e uma noites ,você torce pra que a próxima historia resulte num desfecho da anterior. Mas não... cada passo e experiencia sexual contada na vida de Joe, é tentar fechar um buraco com um outro maior.
A poesia é notória durante todo processo, em muitas situações comovente e a tentativa de retratar profunda naturalidade dos acontecimentos chega a incomodar.
E como é do feitio do Trier,ele coloca seus personagens num limite temático,estabelecendo um outro lugar pra moral, trazendo a redenção de seu herói as avessas. Fazendo o expectador cair no próprio paradoxo de suas convicções mais profundas. (não será apenas uma vez que você verá algo de censura 20 anos, que se mergulhado nos motivos, achará a atitude viável e lógica)
Ame ou odeie Trier, ele faz o cinema ser interessante desde a concepção dos cartazes ( prologo essencial pra obra) e urgentemente moderno nas concepções de suas, e tão suas ideias, que acabam montando aos poucos um mapa moral através do cinema.
A cada encontro com essa verdade, um orgasmo...múltiplo e perene. Quem não vê isso é que precisa rever seus buracos.
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